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Pequeninos poloneses: Crianças e suas famílias durante a imigração Polônia/Brasil de 1920 a 1960

Autora: Thaís Janaina Wenczenovicz
Págs.: 104
Edição: 3ª
Formato: 14x21 cm
Idioma: Português
Lançamento: 2014
ISBN: 9788582000373

r$ 27,90

 

 

 

 

Contracapa

Moacyr Scliar

A presença de imigrantes foi absolutamente decisiva no desenvolvimento da região sul do Brasil e em particular do Rio Grande do Sul. A história do movimento migratório é feita das esperanças e dos dramas daqueles que deixaram sua terra natal, no Velho Mundo e, atravessando o Atlântico, vieram recomeçar suas vidas no Brasil, que era uma verdadeira terra da promissão. Em "Pequeninos poloneses: crianças e suas famílias durante a imigração Brasil/Polônia de 1920 a 1960", Thaís Janaina Wenczenovicz reconstitui o cotidiano de um desses grupos: o grupo dos poloneses. E o faz de maneira erudita, informada, sensível. Baseou-se em ampla bibliografia, em depoimentos e em textos variados para mostrar o fenômeno da imigração de maneira absolutamente original: através dos "pequenos poloneses", as crianças filhas dos imigrantes. É uma descrição vívida e afetiva de como viviam esses meninos e meninas: como se alimentavam, como brincavam, o que vestiam, que doenças os ameaçavam. É uma grande contribuição para a historiografia do Rio Grande do Sul e é também um texto emocionante que certamente cativará o leitor.

Abas

Gerson W. Fraga

"Pequeninos poloneses" pode parecer um trabalho despretensioso. Evitemos tal ilusão. A infância é parte fundamental das atuais preocupações da história social. Entender as mazelas que afligiam as crianças do passado é um caminho fundamental para entendermos nossas atuais mazelas. As diversas travessias (literais ou não), as sociabilidades e as condições do cotidiano de ontem são elementos que forjam os atores sociais de hoje. Somos o resultado de nossa própria trajetória e, assim, a infância que a autora nos mostra é um pouco de nossa sociedade.

Considerações iniciais

A autora

Sabe-se que as crianças foram, durante muito tempo, deixadas na sombra das narrativas históricas e, de certo modo, demorou para que as ciências humanas e sociais focassem a infância como objeto central de suas pesquisas. Demorou mais tempo ainda para que considerassem, em suas análises, as relações entre sociedade, infância e imigração, entendendo a criança como sujeito histórico, tendo como eixo de suas investigações o registro de suas falas.

A análise da produção existente sobre a história da infância permite afirmar que a preocupação com a criança encontra-se presente somente a partir do século XIX, tanto no Brasil como em outros lugares do mundo. No entanto, mesmo a infância constituindo-se em um problema social desde aquela época, ainda não foi suficiente para se tornar um problema de investigação científica. Estudos apontam que, até o início da década de 1960, a história da infância e também a da educação pareciam ser dois campos distintos e inconciliáveis de pesquisa (Ariès, 1973).

Com a publicação, na França em 1960 e nos Estados Unidos em 1962, do livro de Ariès (1973), intitulado História social da infância e da família, e, na década seguinte, em 1974, agregando-se a publicação do texto de De Mause (1991) de nome A evolução da infância, os historiadores da educação, principalmente os norte-americanos, encontravam-se no processo de reconstruir a definição precisa de seu campo.

No entanto, até aquele período, poucos historiadores haviam manifestado algum interesse pelo tema da infância ou o tinham colocado como objeto de suas pesquisas. Somente uns poucos tentaram conhecer melhor a história envolvendo crianças. Porém, para Ariès (1973) e De Mause (1991), a história da infância e as questões da aprendizagem humana já estavam relacionadas conceitual e socialmente.

Em contraponto, o desenvolvimento da antropologia e a ênfase dada à família e à mulher, o advento da nouvelle histoire (nova história), bem como a afirmação de novos campos de investigação e linhas de pesquisa, mais atentas ao cotidiano e ao privado, contribuíram para que as crianças saíssem dessa obscuridade.

Estudos que revelam as interfaces da infância marcam espaço em trabalhos que discutem a alfabetização e ou inclusão escolar, no campo da pedagogia e do cotidiano, em especial para a história. Ressalta-se que a maioria desses pesquisadores tem por entendimento de vida cotidiana, num sentido comum, o imediatismo, a vida privada e familiar, as atividades ligadas à manutenção dos laços sociais, ao trabalho doméstico e às práticas de consumo. São, assim, excluídos os campos econômico, político e cultural da sua dimensão tradicional.

O estudo das representações ou práticas infantis é considerado tão importante que a historiografia internacional já acumulou consideráveis pesquisas sobre a criança e seu passado. Em se falando de Europa, há três décadas, a demografia histórica ajudava a detectar a expectativa de vida, o papel das crianças nas estruturas familiares, os números de abandono infantil, a contracepção e a mortalidade, resultante de doenças infecto-contagiosas.

Entretanto, em se tratando do cotidiano da infância na imigração polonesa, existe um vazio historiográfico. Esses pequenos seres, ainda hoje, têm pouco espaço nas preocupações acadêmicas. Foi por isso que entendi necessário realçar elementos do processo imigratório através das vivências de crianças polonesas, valendo-me de depoimentos orais, bem como de fotografias e fontes primárias, capazes de aproximar-nos à vida da infância do passado. Todavia, confesso que a motivação para esta obra nasceu de uma influência fortuita. Deu-se pouco antes de 2010, quando um de meus artigos de pós-graduação caiu nas graças de um reconhecido escritor, professor e pesquisador, Moacyr Scliar, que se agradou da temática e logo me convenceu da importância de uma obra mais elaborada, considerando a habilidade e a facilidade de circular entre as fontes que eu tinha na época, acrescida ao domínio da língua polonesa que me permitiriam obter informações singulares através do uso de metodologia oral.

O objetivo deste livro, então, foi resgatar alguns aspectos da história da criança simplesmente criança, bem como as formas de sua existência cotidiana, as potenciais mudanças em seus vínculos afetivos e sociais durante a travessia e a adaptação, desde a Polônia até o Brasil, sua nova terra. Tudo isso por meio de uma história que, na maioria das vezes, não nos é contada. Recuperar essa parcela do passado é propiciar direito de voz aos documentos históricos, dando luminosidade à memória e ao vivido.

Em consonância ao corpus documental, este estudo teve como delimitação temporal o período de 1920 a 1960. Para investigar esse lapso de quatro décadas, utilizaram-se fontes de informação primária e secundária, bem como o aporte da metodologia de história oral temática. Foram elaboradas, portanto, dez entrevistas com filhos de imigrantes poloneses, sendo dois deles os próprios imigrantes, ou seja, as crianças que fizeram a viagem transoceânica. Seus nomes completos, idades, profissões etc. encontram-se detalhados nas referências, ao fim da obra. Por mais que, no momento da entrevista, todos já tivessem bastante idade, todas as falas ajudaram a orientar a narrativa, sendo que sete delas foram, inclusive, utilizadas diretamente no corpo do texto, como se verá adiante.

Esta obra divide-se, então, em três partes. O Capítulo I – Polônia, poloneses e o Novo Mundo – refere-se ao processo desencadeado nos séculos XIX e XX em toda a Europa: o deslocamento de milhares de pessoas que procuravam conquistar na América suas liberdades individuais. No Capítulo II – Palavras sobre a infância –, encontra-se a evolução ao longo da história do conceito desse período do desenvolvimento do ser humano. E, no Capítulo III – Enfermidades na infância –, é possível adentrar no mundo das doenças, práticas de cura e momentos finais de muitos dos pequeninos poloneses: a morte.

Os esclarecimentos possíveis neste livro, entre outras coisas, ajudam a entender o périplo polonês da metade do século passado em diante por diferentes regiões de nosso país e as consequências resultantes do processo de colonização e povoamento sobre os mais vulneráveis seres que acompanhavam os adultos: as suas crianças.

Prefácio para a Thaís e seus pequenos poloneses esquecidos no tempo

Gerson W. Fraga 

 O ato de prefaciar uma obra é, antes de tudo, uma forma de refletir sobre o próprio ato da escrita, sobre os motivos que a ela nos conduzem e os objetivos finais deste trabalho que sabe ser árduo à sua maneira. Guiados pela mão que compôs a obra, contemplamos a construção de uma história, de uma tese, de um argumento que se quer legítimo e busca, em última instância, seduzir e convencer o leitor sobre a pertinência de dedicar algum tempo àquelas linhas. No caso da história – e de outras ciências ditas humanas –, podemos vislumbrar também a forma com que o autor da pesquisa, tal qual um artista circense, equilibra-se sobre a linha tênue que as fontes lhe oferecem, sem desviar à esquerda ou à direita, a fim de chegar satisfatoriamente ao seu objetivo. O prefaciador é, em última análise, um leitor privilegiado, pois tem a missão de deixar registrada sua impressão pessoal junto à obra.

Pois bem, recebi o convite da pesquisadora Thaís Wenczenovicz para prefaciar esta nova edição deste livro, Pequeninos poloneses: crianças e suas famílias durante a imigração Polônia/Brasil de 1920 a 1960, com certa surpresa, afinal, até hoje, a história da infância nunca esteve dentre meus objetos diretos de pesquisa, mas o recebi também com alegria, afinal, tenho tido o privilégio de acompanhar a trajetória da Thaís com alguma proximidade. Sei de suas preocupações com seu fazer profissional e com uma educação pública de qualidade, o que não é pouca coisa nestes tempos em que nosso olhar é direcionado às pirotecnias novidadeiras, em que a coisa pública é constantemente achincalhada pelos profetas da privada. Para estes adivinhos, o passado, quando não idealizado em construções servis às suas estruturas de dominação, deve ficar depositado nos escaninhos do esquecimento. E o esquecimento, lembremos, é parte indissociável da injustiça.

Pequeninos poloneses pode parecer um trabalho despretensioso. Evitemos tal ilusão. A infância é parte fundamental das atuais preocupações da história social. Entender as mazelas que afligiam as crianças do passado é um caminho fundamental para entender nossas atuais mazelas. As diversas travessias (literais ou não), as sociabilidades e as condições do cotidiano de ontem são elementos que forjam os atores sociais de hoje. Somos o resultado de nossa própria trajetória e, assim, a infância que a autora nos mostra é um pouco de nossa sociedade. As histórias e relatos colhidos junto ao vasto corpo documental que Thaís utiliza compõem o imaginário de muitas famílias que, hoje brasileiras, têm suas raízes em uma distante travessia desencadeada por condições de vida precárias e pela esperança de dias melhores; em histórias de privações, navios lotados e promessas não cumpridas; em estranhamentos e reconstruções que envolviam a tentativa de reproduzir a antiga terra em meio a culturas tão diferentes.

Outro mérito (e não menor) do texto da Thaís está no fato de comprovar que o texto científico não necessita ser compreensível apenas a uma casta de pseudoiluminados. Desprovido das bizantinices acadêmicas, Pequeninos poloneses possui uma leitura fácil e agradável, sem perder na apresentação de seus resultados de pesquisa. Talvez, por isso mesmo, o livro esteja agora indo para sua terceira edição, já tendo sido traduzido e editado na Polônia, onde tem encontrado boa acolhida por parte do público leitor.

Aqueles que se deixam guiar pela mão desta pesquisadora, experimentam, através da prática da leitura, a experiência de reviver esta travessia feita por tantos de nossos antepassados. É certo que houve outras tantas travessias, com muitos imigrantes somando-se a todos àqueles que já se encontravam em terras americanas. Sabemos disto, assim como sabemos que tais encontros nem sempre foram maravilhosos como pretendia nos vender certa historiografia já combalida. Esta obra é também um pouco desta história. As âncoras se levantam já no Capítulo I, onde somos apresentados à situação polonesa do final do século XIX e do começo do XX, bem como aos diversos motivos que levavam milhares de pessoas a embarcar rumo a um continente desconhecido, tais como a ausência de terras, a mecanização rural e a intolerância religiosa.

As lembranças e os relatos acerca dos dias passados nos navios, o estabelecimento nos novos lotes distantes de qualquer benesse da vida urbana e a posterior busca por novos espaços diante da impossibilidade de refracionar propriedades já pequenas são temas que integram o primeiro capítulo. Neste ponto, começamos a perceber que a vida dos pequenos imigrantes estava indissoluvelmente ligada ao cotidiano familiar, uma vez que "na propriedade colonial trabalhavam todos os membros da família", executando, assim, os pequeninos todas as tarefas que estivessem ao seu alcance, sem que fossem descuidadas sua educação e sua inserção na vida religiosa.

É a partir do segundo Capítulo II que a infância toma o protagonismo. Coadjuvantes nas embarcações, as crianças encontravam-se submetidas às mesmas condições de sobrevivência que afligiam os adultos: os espaços apertados, os enjoos provocados pelo balouçar da embarcação, o calor ao atravessar a linha do Equador, a alimentação em alto mar e a adaptação a uma nova dieta. Em tudo, o texto de Thaís nos conduz a um cotidiano distante a essa altura da leitura, tal qual Virgílio nos conduziria de forma segura a fim de que nossos olhos vislumbrassem o passado.

Os procedimentos tomados pelos adultos durante o parto, os cuidados durante os primeiros dias de vida, o vestuário, os brinquedos e as brincadeiras que permeiam o trabalho e o mundo dos adultos e os cuidados com o corpo também são alguns dos itens por onde o passo seguro da autora nos conduz.

Todavia, naquele cotidiano duro, nem tudo eram papoulas vermelhas. Assim, no Capítulo III, somos apresentados às doenças epidêmicas, parasitárias e infecciosas que eram parte do lingínquo cotidiano infantil. Diante da distância do Estado e de uma estrutura médica razoável – ou do medo desta –, restava recorrer aos remédios caseiros, às plantas e às benzedeiras. Infelizmente, não raros eram os casos em que as enfermidades culminavam na morte prematura. Às crianças que acompanhavam os funerais, restava encontrar velhos amigos e fazer novos, ao mesmo tempo em que se aprendia as regras de conduta adequadas a estes momentos.

Por fim, pequenas considerações finais buscam dialogar com o encerramento desta obra. Muito mais do que dar direito de voz aos documentos históricos, à memória e ao vivido, Pequeninos poloneses conta a história de uma parcialidade migratória por vezes esquecida neste grande caldeirão étnico chamado Brasil. Se muitas das experiências vividas pelos migrantes poloneses dialogam com outras, experienciadas pelas demais etnias de origem europeia, há também que considerar as especificidades deste grupo que, talvez por constituir um contingente menor, talvez por representar uma migração sistemática mais recente, costuma ficar em segundo plano ao pensarmos as diversas migrações europeias que aportaram no Brasil.

Assim, Thaís Wenczenovicz também nos brinda com páginas de uma temática rara na história do Brasil, em um trabalho cujo alcance certamente transborda os limites geográficos em que se insere a narrativa. Assim, não se trata somente de dar voz aos documentos, à memória e ao vivido, mas também de divulgar um  passado que é integrante de nossa própria história nacional, afinal, estes pequenos, ao ajudarem suas famílias nas propriedades rurais do Sul do Brasil de ontem, também contribuíam com seu quinhão para construir o Brasil de hoje. E não se esqueçam: para cicatrizar calos, banha e folha gorda.

Sumário

Prefácio para a Thaís e seus pequenos poloneses esquecidos no tempo
Gerson W. Fraga / 7
Considerações iniciais
A autora / 13
Capítulo I - Polônia, poloneses e o Novo Mundo / 17

Polônia: produção econômica e a terra / 20
A presença polonesa no Rio Grande do Sul / 24
Colonização e povoamento / 29
Instalação no lote colonial / 36

Capítulo II - Palavras sobre a infância / 47

Pequeninos a bordo / 49
A alimentação / 52
O intercâmbio do brincar / 54
Brincadeiras e brinquedos / 57
Um dia para as crianças: a comemoração no Brasil / 60
Vestuário infantil / 61

Capítulo III - Enfermidades na infância / 69

Cura popular e infância / 73
Coceira indesejável: bicho-de-pé, piolho e sarna / 76
Amargos, doces e azedos: remédios para criança / 81
Medo secular: enfermeiras, injeções e médicos / 83
Morte na infância / 87

Considerações finais / 93
Referências bibliográficas / 97

Depoentes orais / 100
Fontes primárias / 101

 
 

 

   
   
      


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